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Eixos de Formação

O Bacharelado em Estética e Teoria do Teatro teve no Departamento de Teoria do Teatro, criado em 1982, a fonte e a base para o seu desenvolvimento enquanto Curso. O que se procurou realizar, no entanto, não foi uma simples adaptação do quadro de disciplinas anterior a uma nova realidade institucional. Pelo contrário, a modificação e a autonomização do ensino dessa área acadêmica se fizeram acompanhar de uma redefinição dos eixos de formação a serem privilegiados pelo Curso e da criação de vinte e uma disciplinas novas, acompanhada da exclusão de dez antigas disciplinas e da revisão de nove outras que se mantiveram no novo ementário.

A diversidade do quadro teórico atual, no campo das Ciências Humanas, impõe, para um pesquisador em Artes Cênicas, a necessidade de mostrar-se apto a exercitar um diálogo acadêmico rigoroso, inventivo e interdisciplinar com campos vizinhos de saber e de, ao mesmo tempo, esforçar-se por renovar metodologicamente os estudos teatrais por meio não apenas do aprofundamento e do amadurecimento no próprio campo de trabalho, mas também de uma investigação capaz de contrastar e relacionar saberes e contribuições que sejam oriundos de diferentes territórios cognitivos. É necessário, ainda, se temos em mente os processos atuais de pesquisa e de avaliação crítica e o panorama artístico moderno e contemporâneo, levar em conta questões como a da dissolução crítica de gêneros discursivos e fronteiras, das inovações técnicas e do seu papel preponderante sobre as formas de criação, do diálogo interartístico e intermidiático que vêm marcando as realizações no campo do teatro, da literatura e das artes em geral.

Nesse sentido, os três eixos - Crítico-Conceitual; Cênico-Dramatúrgico; Memória/História/Arquivo - que servem de base para a estruturação do Curso de Bacharelado em Estética e Teoria do Teatro têm, em comum, tanto a busca de aprofundamento e ampliação da pesquisa, do estudo e da experimentação em Artes Cênicas e Teoria do Teatro, quanto a associação deste trabalho a um diálogo crítico e vigoroso com o campo da Estética e das Humanidades em toda a sua extensão e com formas diversas de exercício crítico e artístico.  E mesmo em seu interior, cada um desses eixos foi pensado tendo em vista uma espécie de dobra reflexiva, funcionando como estruturas pautadas pelo diálogo entre investigação conceitual e diferentes formas de exercício crítico, entre práticas cênicas diversas e formas igualmente múltiplas de compreensão da escrita dramatúrgica, entre perspectivas historiográficas e práticas artístico-conceituais do arquivo com ênfases distintas.

No primeiro desses eixos, o “Eixo Crítico-Conceitual”, trata-se de apresentar um quadro teórico e crítico vasto e consistente, no âmbito da Estética e da Teoria do Teatro, empreendendo-se, igualmente, estudo aprofundado de conceitos, de concepções estéticas, de diferentes paradigmas e regimes de representação, das relações e tensões entre filosofia da arte, teatro e modernidade, entre arte e política, teatro e sociedade, palavra e imagem, teatro e artes visuais, teatro e literatura, teatro e cinema. E procurando-se, simultaneamente, trabalhar, com os bacharelandos, formas de investigação metódica e de pesquisa artística e acadêmica comprometida com a experimentação e a invenção, preparando-os para o exercício crítico enquanto interferência direta na discussão e na pratica artístico-intelectual contemporânea e enquanto reavaliação das formas canônicas de historiografia teatral e artística e de visualização de novas práticas de pensamento e intervenção cultural.

O “Eixo Memória/História/Arquivo” volta-se, de um lado, para a reflexão continuada sobre os conceitos e problemas teórico-metodológicos que envolvem o trabalho do pesquisador e, de outro, para o estudo histórico e estético de tradições, períodos, movimentos, grupos, artistas, formas de atuação e produção artística, proposições teóricas, manifestações e processos artísticos e teatrais em suas relações com o contexto sócio-político no qual emergem e no qual se transformam, com diferentes formas de conceituação, recepção e problematização a que se viram submetidos. Incluindo-se, nesse eixo, o estudo tanto de tópicos e tradições fundamentais da arte brasileira, quanto da formação de uma cultura teatral, de sua relação com os ideais e processos de modernização no país, oferecendo-se, igualmente, uma observação crítica abrangente das manifestações artísticas, cênicas, performáticas e espetaculares contemporâneas, analisando-se suas linhas de força e algumas das criações recentes mais significativas.

Quanto ao “Eixo Cênico-Dramatúrgico”, volta-se, por um lado, para o estudo e a análise de teorias ou poéticas do drama e de formas diversas de escrita dramatúrgica e de notação cênico-performáticas, de diferentes concepções artísticas de cena, atuação e performance, e para a compreensão do texto e das estruturas dramatúrgicas, em suas diversas formas de manifestação e construção, assim como das materialidades cênicas e seus processos de constituição e significação. E procura, por outro lado, ocupar-se, igualmente, da experimentação cênica e artística e da criação da escrita dramatúrgica, entendida não apenas enquanto elaboração de um texto teatral, mas como registro, texto-proposição e reflexão sobre a realização cênica e as escolhas artísticas nela envolvidas.

OS EIXOS DE FORMAÇÃO E AS DISCIPLINAS TEÓRICO-PRÁTICAS

Cada um dos três eixos privilegiados no Curso de Bacharelado em Estética e Teoria do Teatro, remetem a um conjunto de práticas, focadas nos campos reflexivos por eles iluminados. No primeiro deles, o Eixo Crítico-Conceitual, enfatizam-se as práticas de caráter teórico-conceitual e crítico-editorial; no segundo, o Eixo Memória/História/Arquivo, trabalham-se práticas artístico-conceituais do arquivo e, no terceiro, o Eixo Cênico-Dramatúrgico, sugerem-se práticas dramatúrgicas e práticas cênico-performativas. Lembrando-se, nesse sentido, porém, que caberá ao aluno optar por duas dentre essas séries de práticas. Caso ele tenha interesse, no entanto, em cursar todas elas ou algumas das demais práticas, poderá fazê-lo e elas serão computadas, em seu histórico escolar, como atividades complementares, se excederem a carga horária de disciplinas optativas.

Com a existência, lado a lado, no quadro de disciplinas, de práticas cênico-dramatúrgicas e de práticas teórico-conceituais, por exemplo, sublinha-se, para o bacharelando, a dimensão reflexiva da prática artística e o aspecto material da prática teórica, questionando-se a bipolarização entre teoria e prática que costuma marcar muitos dos cursos voltados para as artes cênicas, visuais, cinematográficas e para a literatura no país. Por outro lado, em todas essas práticas, sugere-se a possibilidade de experimentações, ensaios e investigações tanto cênicos, performativos, quanto realizados no âmbito da escrita dramatúrgica ou conceitual.

- “Eixo Cênico-Dramatúrgico”, observe-se, nessa linha, que, nas“Práticas Cênico-Performativas”, acham-se compreendidas tanto a discussão quanto a constituição de experiências cênicas e performativas, tanto a análise de propostas, registros de performances e espetáculos, de textos de artistas, críticos e teóricos, quanto o exercício de proposições cênicas, artísticas ou performativas sugeridas ou apresentadas ao longo da disciplina. Quanto às “Práticas Dramatúrgicas”, operam-se em territórios igualmente duplos – o da escrita textual e o da escrita cênica, o da escritura e o da pesquisa, o da reflexão e o do campo pragmático da apresentação, procurando-se exercitar, desse modo, a dramaturgia tanto como um trabalho de análise, pesquisa e conceituação, quanto como forma de escritura submetida a múltiplas condições de enunciação e às exigências da performance e da encenação.

- No âmbito do “Eixo Crítico-Conceitual”, propõem-se duas possibilidades de práticas. Há, de um lado, a disciplina “Práticas Teórico-Conceituais”, focada em categorias, critérios e noções ligados às teorias do teatro, da atuação e do pensamento sobre a arte, e em dispositivos característicos ao fenômeno cênico ou ao campo artístico contemporâneo, buscando-se não apenas a sua melhor compreensão, mas, simultaneamente, formas de atuação crítico-reflexiva com potencial de tensionamento e redefinição dos campos artísticos em pauta. E há, ainda, a disciplina “Práticas Crítico-Editoriais”, interessada, por sua vez, em diferentes formas de exercício crítico e de trabalho e pesquisa em edição (impressa, sonora, audiovisual, multimídia), em curadoria, em montagem de exposição, seminários ou apresentações diversas. Buscando-se, nesse caso, espaço de discussão, análise e leitura, mas também de experimentação no âmbito da curadoria, de trabalho na revista digital a ser criada pelo Bacharelado em Estética e Teoria do Teatro, na criação de blogs, vídeos, programas radiofônicos, material fotográfico, textos impressos, ou em trabalhos variados de editoração, compilação ou seleção editorial.

- O eixo “Memória/História/Arquivo” se faz acompanhar de uma série de práticas reunidas na disciplina “Práticas artístico-conceituais do arquivo”, ao longo da qual se busca pensar o arquivo tanto no seu caráter de sistema de formação e transformação dos discursos, quanto tematizar formas específicas de inventario (o atlas, a lista, a coleção, a serie, o museu, o dicionário, a instalação), tendo em vista o lugar fundamental que ocupa nas manifestações artísticas e na cultura histórica ocidental, e discutindo-se, desse modo, o trabalho historiográfico e arquivístico na contemporaneidade. Também no âmbito dessa disciplina trata-se de constituir um espaço-em-dobra, no qual se exercite não apenas uma reflexão sobre essas práticas, mas também se possibilite uma série de exercícios, por meio dos quais se sugiram novos objetos, se expanda a pesquisa de materiais empíricos e historiográficos e se amplie o escopo dessas praticas artístico-conceituais do arquivo.

Quer o bacharelando se interesse em cursar a totalidade dessas práticas, quer se atenha às duas previstas no currículo obrigatório, de todo modo, se evidenciará, em sua formação, que, em vez de bipartição, de polarização entre teoria e prática, o que se procurou empreender, no Curso de Bacharelado em Estética e Teoria do Teatro, foi uma tensão necessária, constitutiva entre dimensões distintas e geminadas de um pensamento simultaneamente especulativo e experimental, analítico e performativo, como o que deve reger a atividade crítica, dramatúrgica e especulativa e a pesquisa artística, cênica e histórica, campos potenciais de atuação do egresso deste Bacharelado.